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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Quanto tempo é necessário viver para se tornar inesquecível?






Heather e Patrick Walker são um jovem casal que recebe com total felicidade a notícia de que eles iam ser pais, um terceiro filho estava a caminho e seria um menino. A ilusão da gravidez encheu de felicidade para a mulher que esperava ansio...samente a seu pequeno, mas a história tomou um rumo inesperado quando, depois de testes em 16 semanas de gestação os especialistas informaram os futuros pais que seu pequeno sofria de anencefalia, uma doença congénita que impediria sobreviver após o nascimento.




A família teve tempo para se acostumar com a idéia de que pelo menos compartilhariam o tempo de gestação com seu pequeno e o dia do seu nascimento seria um grande evento onde também teriam a oportunidade de dizer adeus a ele. Por isso, contactaram uma organização sem fins lucrativos chamada "Now I Lay Me Down To Sleep" para que um fotógrafo profissional participasse do nascimento da criança e registrasse as imagens deste dia especial, para nunca mais esquecê-lo e vivê-lo da maneira mais íntima e amorosa possível .


O bebê nasceu em 15 fevereiro de 2012 em Memphis Tennessee, recebeu o nome de Grayson James Walker e viveu apenas oito horas após o nascimento. O pequeno sofria de uma doença congênita que dá poucas expectativas de vida, pois a anencefalia é uma doença congênita que afeta o cérebro e a configuração individual dos ossos do crânio que rodeiam a cabeça. No entanto, o tempo em que ele viveu após o nascimento foi um dom da vida que os seus pais aproveitaram para ter momentos mais que especiais com seu filho, já que tiveram a oportunidade de beijá-lo, abraçá-lo e dar-lhe o seu primeiro banho juntos no quarto do hospital .

Toda a história é comovente e reflete um amor eterno desses pais pelo seu bebê, por isso é difícil entender por que depois Heather foi censurada quando fez o upload (a postagem) de imagens do seu pequeno já falecido para o Facebook a fim de compartilhar com suas famílias e amigos, todo o álbum de fotografias foi deletado sem aviso ou explicação e, em seguida, a sua conta pessoal na rede social foi fechada e apagada. A mulher explica:


"Pouco depois o Facebook apagou as fotos, devido ao conteúdo. Eles permitem que as pessoas postem fotos quase nuas, palavrões e outras coisas, mas eu não estou autorizada a compartilhar uma foto da bela criação de Deus".

As políticas desta comunidade virtual indicam que se deve respeitar certas normas da comunidade, por isso podem remover as informações consideradas ofensivas nas categorias de nudez e pornografia, violência gráfica, discurso de ódio, flagelação, violência, intimidação e ódio, invasão de privacidade, propriedade intelectual, material indesejado, é por isso que os pais não entendem dentro de qual dessas categorias podem ser colocadas as fotos do menor de seus filhos, algo que os entristeceu profundamente já que tinham a intenção de que a maior quantidade possível de pessoas soubessem que seu filho passou por este mundo.



Nas palavras de seu pai :


"Meu filho viveu por quase oito horas, e fez nesse curto espaço de tempo o que eu jamais poderia ter feito mesmo em uma centena de vidas. Isso é incrível. "


Traduzido por Murah Rannier Peixoto Vaz

Texto extraído de: http://pequelia.es/75975/facebook-censura-a-una-madre-que-subio-fotos-de-su-bebe-con-anencefalia/






sexta-feira, 19 de julho de 2013

CAUSA E EFEITO





Murah Rannier Peixoto Vaz

Sob um exemplo simples observado, como o ato de empurrar (causa inicial da aceleração) um objeto, e este se locomover no tempo e espaço, até que sob a força de atrito este pare e venha a encontrar repouso, observamos que para que o objeto viesse mover-se foi preciso que houvesse algo que o impelisse, uma força que causasse a impulsão. Por outro lado, ao mesmo tempo encontramos uma força contrária, o atrito (causa final da aceleração), que faz com que o objeto venha a fazer uma desaceleração a partir do momento em que foi impelido. Se tudo o que existe tem uma causalidade, não teria também o mundo uma força que o tivesse impelido a ser como é? Haveria uma causa inicial e final neste caso também?

Um bom exemplo nos é dado por Voltaire (provavelmente influenciado pelo pensamento Cartesiano). Para ele, ao olharmos uma máquina supomos que exista um mecânico, e que ao olharmos um relógio, com toda a complexidade de peças, engrenagens, parafusos e tudo o mais que nele há, também supomos que alguém o fez. Portanto, o relógio é uma prova inquestionável de que há o relojoeiro.

Alguns diriam: _A tese de que aquilo que existe veio de um Deus pessoal já é ultrapassada, sabemos que o mundo surgiu ao acaso a partir do big-bang, e daí a alguns milhares anos depois surgiu a vida a partir da evolução de minúsculos seres, até chegarmos aos peixes e passando pelos répteis, progressivamente chegando aos mamíferos e então aos primeiros hominídeos que de uma hora para outra, desenvolveram-se ao ponto, de adquirirem a razão. Curiosamente nessa mesma afirmativa aparece um pequeno e determinante detalhe: segundo alguns afirmam, somos primos dos macacos, temos ancestrais comuns e, mesmo assim, somos e agimos de formas tão diferentes. Não seria tudo isto obra de Deus, algo planejado, ou seja, idéia do próprio criador? Afirmar que a causa de tudo é o acaso é o mesmo que fazer adesão de fé ao nada.

Outros questionarão: _Ah, mais os religiosos não dizem que não condiz evolução com criação? Alguns sim, pois não compreendem o Gênesis, não interpretam a poesia da alegoria do Gênesis e fecham-se num pensamento que não abrange a totalidade. Esse não é o pensamento de todos e nem o da Igreja.



Sendo assim, Deus cria do nada uma matéria informe e a ela molda e dá forma. E isto Ele faz na mobilidade e mudança das coisas que é o que nos dá a possibilidade de perceber este espaço e tempo em que estamos inseridos. Segundo Agostinho, a mutabilidade não pode vir de Deus, pois Ele não pode ser e não ser ao mesmo tempo, pois é o Imutável e sua substância jamais varia com o tempo. A vontade de Deus vem de sua substância,

deste princípio deduz-se que Deus não quer ora isto, ora aquilo, mas que o que uma vez quis, simultaneamente e para sempre o quer. Não pode querer repetidas vezes nem querer agora uma coisa e logo outra, nem querer depois o que antes não queria ou deixar de querer o que queria, porque tal vontade sendo mutável, não é eterna; ora, o nosso Deus é eterno.

Entretanto, também segundo Agostinho, não pode haver tempo sem a variedade de movimentos: “Deus (...) não criou o mundo por um novo ato de vontade, e (...) nem a sua ciência pode sofrer alguma transição.” Sabendo disso como podemos compreender então, um mundo onde as coisas mudam?

Os evolucionistas concebem que tudo está em mutação, os religiosos cristãos dizem que tudo já foi criado desde o princípio e, assim, não admitem a evolução das espécies darwinista. No entanto, apesar de não ser aceita a evolução tal qual apresenta Darwin, a partir do proposto por Agostinho (grande pensador e santo cristão), há a possibilidade de se afirmar uma espécie de evolucionismo aceito por cristãos. Segundo esse viés agostiniano, permanece a imutabilidade, a qual fica contida nas razões seminais (rationes seminales), onde, de fato, tudo já foi criado no princípio, mas está para vir à tona. Pois, como uma semente que espera para germinar e se tornar uma planta, assim estão os germens que o criador colocou na natureza, desta forma pode se traçar um paralelo entre evolução darwinista e criação cristã. Com este pensamento, já na criação tudo o que há e está por vir a ser, já foi criado, pois está desde o princípio nas idéias de Deus ou projeto divino, e contido como germens prontos para brotar em seu devido momento.

Seguindo esta linha de raciocínio, ao pensar sobre o ser humano, nos deparamos com a mesma questão que indagou Pascal:

Que é o homem na natureza? É nada em relação ao infinito, é tudo em relação ao nada, algo de intermediário entre o nada e o tudo. Infinitamente distante de poder abraçar os extremos, o princípio e o fim das coisas lhe estão irremediavelmente ocultos em um impenetrável segredo, pois ele é igualmente incapaz de ver o nada do qual foi extraído, e do infinito pelo qual foi engolido.

Ou seja, vemos aqui a miséria e a grandeza do homem, sua grandiosidade em meio ao mundo, mas ainda assim um “caniço pensante”, que por pensar, torna-se grande e tornando-se grande percebe e reconhece sua pequenez, diante daquele que é infinitamente maior que ele.

Como se percebe, o mundo não surgiu de um nada ao acaso. É mais razoável e crível crer que o mundo foi feito pelo Criador Ex Nihilo (do nada), mas não que já tenha feito todas as coisas como são hoje. Seguindo o que fora dito por Agostinho, é possível conceber o big-bang e um possível evolucionismo, não tal qual o de Darwin, mas um evolucionismo que faz com que as coisas venham a ser outras, as quais não eram. Mas isto, somente a partir da concepção de criação total, pronta e acabada nas idéias Eternas de Deus, onde estão inseridos os germens, ou como diria Aristóteles a potência, e sendo tudo isto operado por Deus, artífice e razão de nossa subsistência. Considerando, no entanto, que esse mesmo Ser que é a causa, criador e princípio de tudo, é incausado, incriado e eterno, ou seja, sem um princípio, sem causa e que existe fora do tempo. Diria Aristóteles que Deus é o “motor imóvel” que move todos os outros motores.

sábado, 23 de junho de 2012

Aprovar o aborto seria um retrocesso jurídico na nossa sociedade (Parte II)

Entrevista com especialista em bioética, Pe. Helio Luciano

Por Thácio Siqueira

BRASILIA, sexta-feira, 22 de junho de 2012 (ZENIT.org) – Ontem publicamos a primeira parte da entrevista que o Pe. Helio concedeu a ZENIT com o fim de ajudar os católicos do Brasil a refletirem sobre o tema do Aborto, que está em pauta para aprovação no nosso país.

O Pe. Helio Luciano é mestre em bioética pela Universidade de Navarra, mestre em Teologia Moral pela Pontificia Universidade Santa Cruz em Roma e membro da comissão de bioética da CNBB.

 
Publicamos hoje a segunda e última parte da entrevista.
***

ZENIT: O embrião é uma pessoa humana? O que é que comprova isso? E por que ele teria todos os direitos fundamentais de um ser humano, incluindo o direito à vida?

 
PE. HELIO: A resposta que dou a esta pergunta, que frequentemente se repete, é sempre a mesma: não importa se o embrião é pessoa humana ou não. À primeira vista tal resposta pode parecer polêmica ou até agressiva – mas asseguro que esta não é a minha intenção. A questão é que “ser pessoa” ou “não ser pessoa” é um problema filosófico e jamais poderá ser provado em âmbito científico-positivo. Mas a discussão em relação ao aborto não é uma questão de filosofia, mas de biologia básica.

O que temos, desde a fecundação, independente se é pessoa ou não, é um novo ser humano. Como já dizíamos – temos um novo indivíduo da espécie homo sapiens sapiens, com um DNA único e irrepetível em toda a história da humanidade. Sendo um ser vivo da espécie humana, tem todo o direito de ser respeitado como qualquer outro ser humano. Nas aproximadamente quarenta semanas em que este novo ser humano costuma permanecer dentro do ventre materno, não existe nenhum salto quantitativo ou qualitativo que possa dizer que tenha sofrido uma mudança substancial. Todas as capacidades humanas adquiridas por aquele novo ser, têm como base aquele momento inicial – ou seja, aquela única célula fecundada, que já era um ser humano.
A maioria dos defensores do aborto, hoje, costuma admitir as evidências científicas que comprovam que a partir da fecundação temos um novo ser humano. O que objetam é que este ser humano ainda não seria uma “pessoa humana”. A partir desse pressuposto, as divergências entre os abortistas são grandes. Alguns dirão que este ser humano se tornará “pessoa humana” a partir da formação da placenta, outros dirão que a partir da formação do coração, outros defendem que a personalidade se forma com o sistema nervoso central e por fim, existem os que defendem que se torna “pessoa humana” somente após o nascimento. Estes últimos chegam a defender o que se chama partial-birth abortion, ou seja, “aborto do parcialmente nascido”. Em tal procedimento, assim que se dá o coroamento (coroamento é a aparição da cabeça do feto durante o trabalho de parto), faz-se a sucção do cérebro da criança – certamente aqui se trata de um claro infanticídio.

 
Todas as tentativas de colocar esse início da “personalidade” em algum momento concreto do desenvolvimento embrionário ou fetal serão sempre arbitrárias. Se colocarmos o início da “personalidade” em alguma função ou órgão, porque não poderíamos dizer que está no começo do exercício da consciência? Alguns autores já afirmam isso e, consequentemente, defendem que o infanticídio – matar crianças que não tenham o exercício de atividade consciente – é moralmente e eticamente válido, pois não seriam “pessoas humanas”.

 
Por essas discussões é que afirmo que não importa a partir de quando aquele ser humano se tornará pessoa. O importante é que se trata de um ser humano, e que merece todo o respeito e proteção que devemos a qualquer outro ser humano, independente das funções que possa exercer.

 
ZENIT: Quais são as tragédias que o aborto traz para uma nação que o aprova na sua legislação?
PE. HELIO: A tragédia mais profunda é a instituição de uma “cultura de morte”, que não respeita o sofrimento das mães – muitas são quase induzidas socialmente ou economicamente a realizar o aborto – e nem o direito básico dos próprios cidadãos mais indefesos, aqueles que ainda estão por nascer. É irônico que tais sociedades possuem legislações bastante rigorosas para a defesa de embriões animais, enquanto os seres humanos estão totalmente indefesos. Hoje é mais seguro nascer feto de baleia do que feto humano.

Derivada desta “cultura de morte” nasce uma atitude de egoísmo generalizado – o importante não é mais o “bem comum” da sociedade, mas o individualismo, o bem de cada um. Deixamos de viver em sociedade como modo de nos aperfeiçoarmos como seres humanos sociais que somos, para converter-nos, como dizia Hobbes, em lobos para os outros lobos.

O processo de degradação da sociedade – em todos os pontos de vista – também é uma consequência da chamada “cultura de morte”. Se o Direito, base da civilização ocidental, perde sua raiz profunda que o justifica – ou seja, a natureza humana e a defesa do mais débil – a civilização toda se ressente. A crise – social, econômica, moral – da sociedade atual não é mera coincidência. Será mera coincidência que os países com menor taxa de nascimento e maior índice de aborto – Grécia, Portugal, Espanha e Itália – são aqueles com maior crise econômica?

Historicamente, toda a civilização que desrespeitou os valores básicos do ser humano, entrou em decadência e desapareceu. O exemplo mais claro foi a degradação do Império Romano – quando deixou de velar pelos valores básicos, tornando-se meramente “populista”, ampliou seu domínio físico, mas perdeu sua força moral. Não foi a invasão dos chamados “povos bárbaros” o que acabou com Roma – este foi só o golpe final que fez cair o que por dentro já estava moralmente destruído.

ZENIT: O senhor já se encontrou com católicos que aprovam o aborto? Eles podem ser considerados pessoas que estão fora da doutrina e da moral católicas?

PE. HELIO: A Igreja é uma realidade divina, mas que também possui leis e autoridades que devem ser respeitadas. Assim como eu não posso, simplesmente, declarar-me membro da Academia Brasileira de Letras – porque é necessário uma série de requisitos para pertencer a esta Academia – ninguém pode por si mesmo, sem cumprir certos requisitos, ser declarado um membro da Igreja. Deste modo, católicos de fato que defendam o aborto não existem e não podem existir. Se alguém defende o aborto, jamais poderá ser considerado um membro da Igreja, ou seja, não pode participar do Corpo de Cristo.

Por outro lado é um fato que existem grupos de pessoas que se dizem católicas – mas não o são de fato – e que ao mesmo tempo defendem o aborto. Quem sabe o grupo mais expressivo seja aquele que se autodenomina “Católicas pelo direito de decidir”. Certamente os membros deste grupo não são de fato católicos, pois defendem algo absolutamente contrário à própria humanidade – o direito de matar um inocente. É verdade, como já dissemos antes, que a liberdade é um bem, mas não é um bem absoluto. Este bem – o da liberdade – está por debaixo do direito mais elementar de todos, o direito à vida, o bem maior defendido pelo Direito.

Neste sentido, por que não criamos grupos como “Católicos pelo direito de assassinar”, ou “Católicos pelo direito de roubar”. Certamente é uma ironia, mas, às vezes, esta se faz necessária para entender o quão absurdo são os argumentos. Assassinar ou roubar também são atos de liberdade, mas nem por isso alguém pode defender esta liberdade como um valor – pois lesaria valores mais altos, o da vida e o direito à propriedade privada. Do mesmo modo quem defende uma liberdade para matar uma criança dentro do ventre materno, lesa o direito à vida desta criança e, deste modo, não tem o direito de reclamar tal liberdade.

ZENIT: Por que o aborto traz uma das penas canônicas mais sérias do direito canônico, segundo o cânon 1398?

PE. HELIO: Dizíamos, em outro ponto da entrevista, que o Direito tem um fundamento natural, ou seja, expressa o verdadeiro modo de ser da humanidade. O Direito da Igreja, chamado “Direito Canônico”, também tem a mesma raiz natural, além, também, de regular matérias que conhecemos por Revelação.

Desde um ponto de vista natural, como víamos antes, trata-se de um crime hediondo: não apenas se está matando a um ser humano inocente e indefeso, mas se está matando o próprio filho na fase da vida que ele mais necessitava da proteção dos pais. Desde um ponto de vista sobrenatural, baseado na Revelação divina, é algo ainda mais grave – o assassinato de um filho de Deus que tinha sido confiado a estes pais.

As penas no Direito – seja civil ou canônico – sempre devem ter um caráter de proteger um bem, ou seja, de evitar um crime, além do caráter medicinal. Falando em relação ao Direito civil, alguns acusam os católicos de serem desumanos quando pedem a punição da mulher que realiza o aborto. A punição existe para prevenir o crime, ou seja, em defesa da vida do indefeso. Despenalizando o aborto perdemos esta proteção importante para a vida do mais débil. Além disso, na maioria das vezes, a mulher que realiza o aborto é a menos culpada deste ato – normalmente ela está em meio a um conjunto de pressões sociais, sentimentais e econômicas. Os principais culpados – e consequentemente os que deveriam ser mais duramente punidos – são aqueles que induzem e realizam o ato ilegal e imoral do aborto.

Em relação ao Direito Canônico, para que se entenda a gravidade da ofensa ao próximo – sendo este “próximo” o próprio filho – e, consequentemente, a gravidade da ofensa a Deus, é reservada a este pecado a pena da excomunhão latae sententiae. Certamente a palavra excomunhão soa forte aos ouvidos da opinião pública e de fato é a pena mais severa da Igreja – desligar um membro da comunhão com a Igreja. Com latae sententiae se indica que a excomunhão é automática, ou seja, quem comete ou induz alguém a cometer um aborto ou participa da execução do mesmo, automaticamente está excluído da comunhão com a Igreja e, consequentemente, com o Corpo de Cristo.

Ainda sendo a pena mais grave da Igreja, a pena de excomunhão não condiz com o aquilo que o imaginário popular interpreta por excomunhão. Trata-se, como foi dito, de uma pena preventiva, educativa e medicinal. Em primeiro lugar, sendo uma pena tão grave, só recai nela quem cometeu com certeza um aborto – se alguém realiza uma tentativa de aborto sem “êxito”, comete um pecado grave, mas não é excomungado. Também só é excomungado quem sabia, ainda que imperfeitamente, da existência de uma pena especial. Além disso, as pessoas que cometeram, induziram ou participaram de um aborto – e consequentemente estão excomungadas – podem pedir e receber o perdão pelo pecado cometido e o levantamento da pena de excomunhão. Cada diocese possui alguns sacerdotes – em algumas dioceses todos os sacerdotes – habilitados para levantar esta pena, dando logicamente alguma penitência especial, para que se entenda a gravidade do pecado cometido. Normalmente a maior penitência para uma mãe que cometeu aborto é o sofrimento que carrega – por toda a vida – por sentir a culpa de ter matado seu próprio filho.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

ENTREVISTA SOBRE BIOÉTICA - PARTE I

Esta entrevista foi cedida em meados do segundo semestre de 2009, na cidade de Campo Alegre as alunas do Colégio APROV de Catalão, Thávila kaline Miranda da silva e Carollina José da Silva.
ENTREVISTA:
Apresentação:
O entrevistado se chama Murah Rannier Peixoto Vaz, tem 25 anos, é Bacharel em Filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz, seminarista da Diocese de Ipameri e atualmente faz estágio na Paróquia Nossa Senhora do Amparo em Campo Alegre de Goiás.
1 – A clonagem humana para fins do avanço da ciência é uma polêmica, principalmente quando se trata de questões religiosas. Qual a sua visão?


O pensamento que gerou a idéia de clonagem humana, de certa forma, advém do período da segunda grande guerra quando cientistas, entre eles Mengele, a mando de Hitler fizeram várias experiências todas elas contrárias à Bioética, seres humanos eram usados como cobaias e todo tipo de testes eram realizados. O avanço da ciência não é justificável a custa de tudo e de todos. Ou seja, precisamos ter limites e é para refletir sobre esses limites que se criou a Bioética, uma ciência considerada nova, com formulação terminológica criada em 1971, mas com fundamentos alicerçados na antiga Grécia, séculos antes de Cristo.
Pensadores como Sócrates, Platão, Aristóteles, entre outros, foram os que por primeiro contribuíram com a investigação ética. A Bioética atual não difere de suas raízes, ela aborda problemas que atingem a cada pessoa individualmente e a humanidade como um todo.
Mas porque abordo isso, haja vista que falamos de clonagem? Pois antes de falarmos de clonagem devemos refletir a fundo no pensamento que a originou.


Hitler com sua defesa da raça Ariana, a qual acreditava ser superior as demais, influenciado pela filosofia nietzscheniana do “Super-homem”, pensava que o mundo devia se submeter a Nação Ariana e dar lugar a ela. Ele era um entusiasmado adepto da teoria da higiene racial, doutrina "científica" que pregava a eliminação dos genes não arianos do povo alemão. Felizmente, Hitler não atingiu sua intenção, mas, em termos, seu pensamento perdura até hoje.


O quando começa a vida é uma questão bem controversa, até mesmo no meio científico isso gera polêmica.
Biologicamente percebemos que a vida começa em sua concepção, no ato do fecundar o óvulo. Seja por via natural ou artificial em laboratórios. A defesa da dignidade do embrião não tem nada a ver com religião, na verdade é puramente no plano técnico, científico e biológico que nos posicionamos para essa defesa, mesmo que, todavia, a visão cristã também beba nessas fontes.


Eu já fui um embrião, cada um dos que tiverem contato com essa entrevista também já foi. Pergunto, então, e se tivéssemos sido manipulados para algum outro fim? Não tínhamos direito a vida? A diferença entre um óvulo fecundado e você, é o TEMPO e a NUTRIÇÃO.


Alguns argumentam que este seria um modo capaz de salvar milhares de vidas e de fato é. Muitos já deram suas vidas livremente para salvar a vida de outra pessoa, pois tinham liberdade para tomar suas próprias decisões. Mas imaginem se baixassem um decreto que obrigasse que um certo número de brasileiros adultos dessem a vida para salvar a vida de outros brasileiros adultos, quem concordaria?
Nesse aspecto concordo com Carlos Serrano que afirma que:
“Ninguém pode dispor da vida de um embrião, ainda que para um fim benéfico... Porque os fins não justificam todos os meios. Quando um meio é intrinsecamente mau e, para mim, matar um embrião é intrinsecamente mau, não podemos utilizá-lo, mesmo que seja para obter o melhor benefício deste mundo. A não ser que o embrião pudesse dar o seu consentimento.”
De tal forma quem protege o embrião está protegendo a toda a sociedade. Se defendemos que podemos manipular um embrião com menos de 14 dias pelo fato de seu tecido nervoso não ter se formado totalmente é o mesmo que defendermos a morte de um débil mental por seu cérebro não funcionar corretamente. Um cientista não pode ter o direito de escolher quem vai viver usando uma vida para salvar outra. Isso abriria um precedente perigoso para a vida


Não podemos ser utilitaristas, usar embriões ou pessoas fere a vida, pois não somos coisas e tanto o embrião quanto um homem adulto são seres humanos ainda que em estágios diferentes. Da mesma forma como a semente é uma árvore em potência o embrião assim também o é. Dê ao embrião as condições favoráveis para seu desenvolvimento e ele será outro humano adulto.


Assim sendo, tanto o uso do embrião de forma que o mate ou o seu descarte pode ser considerado um aborto, pois a raiz etnológica da palavra aborto significa, entre outros, privação do nascimento, frustrar, malograr e descartar, ou seja, matar um embrião para fins de tratamento seria frustrar ou malograr uma vida. “Se com a fecundação se inicia um processo autogovernado pelo próprio embrião, está mais do que certo que essa formação vital possui a qualidade de ser humano”. (DINIZ, 2001)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ENTREVISTA SOBRE BIOÉTICA - PARTE II (FINAL)

3 – O uso de células-tronco é um tratamento promissor que salvaria milhares de vidas futuramente. Qual sua opinião sobre esse tipo de tratamento?
Como abordei na questão anterior com a citação de Carlos Serrano, os fins não justificam os meios. A vida é um princípio fundamental da Constituição brasileira como se pode constatar em seu art. 5º assim como na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas cujo Artigo III prevê que “Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.”
Cabe lembrar também que o Código Civil brasileiro em seu art. 2º: “põe a salvo desde a concepção os direitos do nascituro”. Conceituação semelhante é dada no Pacto de São José (tratado internacional de direitos humanos no qual o Brasil é signatário), ao determinar em seu artigo 4º: “Toda pessoa tem direito a que se respeite sua vida. Este direito está protegido pela lei e, em geral, a partir do momento da concepção”.
Realmente o uso de células-tronco é um tratamento promissor, mas usar células embrionárias significa sacrificar ou lesar o embrião e ignorar que ele já é detentor de um código genético único, original, e irrepetível, sendo que pode se dispor do uso de células adultas, presentes em cordões umbilicais, placentas e na medula óssea, todavia estas adultas possuem capacidade limitada de diferenciação e essa era a grande afirmação para o uso das células embrionárias. Entretanto, em 2007, através da descoberta de uma nova técnica: a reprogramação consiste em utilizar células humanas adultas da pele para criar células-tronco embrionárias "induzidas", ou seja, elas “voltam no tempo” se transformando novamente em células-tronco embrionárias, e posteriormente podem se diferenciar em outros tecidos do corpo.
Uma pesquisa coordenada pelo neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Stevens Rehen, e pelo biomédico Martin Bonamino, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a partir de células adultas produziu-se pela primeira vez células pluripotentes no Brasil, ou seja, células capazes de se transformarem em vários tipos de tecidos. Assim o Brasil torna-se o quinto país do mundo a produzir células pluripotentes induzidas.
Sou totalmente a favor do uso das células tronco adultas, pois estas não ferem o embrião, não tiram o seu direito a inviolabilidade da vida de sua fase inicial à fase final e podem promover o tratamento e cura de mais de setenta doenças como o mal de Parkinson, Alzheimer, doenças cardíacas, coronárias e até mesmo na recuperação de pessoas paraplégicas. Mas com todos esses avanços científicos e possibilidades abertas é no mínimo incoerente continuar a insistir com o uso de células embrionárias.
4 - Alguns casais fazem tratamentos para ter filhos. Uma das opções é a fertilização in vitro, por não ser um processo natural, qual seria a posição da Igreja?
Com toda certeza é uma questão delicada a fertilização in vitro, pois rompe com o processo natural e biológico da natureza e esse, apesar de ser um problema não é o único. Outra grande questão é o que fazer com o excedente de embriões? Podem ser utilizados em experiências científicas? A quem pertencem? Podem ser descartados, destruídos? Podem ser doados a outro casal?
É delicado dizer algo assim a quem sonha ter seus filhos biológicos, mas penso que casais que não tem condições de ter filhos por vias biológicas naturais ou através de métodos terapêuticos éticos poderiam adotar crianças ao invés de se fecharem em seu egoísmo. De tal forma não teríamos a problemática do que fazer com os embriões excedentes que não podem ser descartados ou destruídos por se tratarem de humanos em potência. Além de tudo, através do ato de adoção dá-se a uma criança a possibilidade de crescer em um lar, e os pais adotivos colocam-se a serviço da vida. No entanto, muitos por uma vontade de ter seu próprio filho, usam se dos meios possíveis para alcançar esse sonho, esquecendo-se de que os embriões restantes do experimento são vidas iniciadas e filhos em potência, assim como aqueles que vierem a nascer.
A conclusão é que a Igreja posiciona-se de forma contrária a fertilização como pode ser observado na afirmação de Dom Sérgio da Rocha:
“a posição do Magistério da Igreja é contrária à fecundação artificial, seja heteróloga ou homóloga, embora procurando compreender os anseios do casal em dificuldades que busca a geração de um filho, e valorizando o serviço prestado pelas ciências na busca de soluções para casais com problemas nesse campo. ( ROCHA, D. Sérgio da)”.
Somos vocacionados (chamados) a vida, ela é um dom de Deus do qual não podemos prescindir, nós somos apenas administradores da vida confiada a nós. Portanto, a escolhamos e a promovamos como cuidadores da vida em todos os seus estágios.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
DINIZ, Maria Helena. O Estado Atual do Biodireito. São Paulo: Saraiva, 2001.
ORG: LEONE, Salvino; PRIVITERA, Salvatore; DA CUNHA, Jorge Teixeira. Dicionário de Bioética. Aparecida: Santuário, 2001.
ROCHA, D. Sérgio da, Questões atuais de teologia moral. Encontro de Formação de Presbíteros/ Sub-Regional de Ribeirão Preto – 04 à 06/09/2007
OLIVEIRA GUIMARÃES, João Vitor Mello de O uso científico de células-tronco embrionárias e o direito à vida.