sexta-feira, 22 de junho de 2012

Aprovar o aborto seria um retrocesso para o Brasil (Parte I)

Entrevista com especialista em bioética, Pe. Helio Luciano

Por Thácio Siqueira

BRASILIA, quinta-feira, 21 de junho de 2012 (ZENIT.org) - De forma muitas vezes velada o Aborto tem sido introduzido em diversos países com raízes cristãs. Introduzido como prática legal e até mesmo financiado pelos governos e por grandes fundações internacionais.


No dia 18 de abril desse ano o Pe. Helio nos concedeu uma entrevista sobre as causas da aprovação do aborto de anencéfalos pelo STF no Brasil. Para ler essa entrevista clique aqui.



Dessa vez, para continuar ajudando os católicos do Brasil a refletirem sobre o tema, o Pe. Helio Luciano, mestre em bioética pela Universidade de Navarra, mestre em Teologia Moral pela Pontificia Universidade Santa Cruz em Roma e membro da comissão de bioética da CNBB, concedeu a ZENIT mais uma entrevista para esclarecer alguns pontos em relação ao aborto e ao perigo da aprovação do aborto numa nação.


Hoje publicamos a primeira parte dessa entrevista.

 

***


ZENIT: Por que o aborto não deve ser legalizado no Brasil e em nenhum país? Os defensores da causa abortista alegam que a aprovação do aborto numa nação é sinal de progresso e desenvolvimento. Realmente é assim? A visão da Igreja católica não é uma visão redutiva da realidade?


PE. HELIO: O Direito nasceu – historicamente – para defender o mais fraco. Por exemplo; se um indivíduo tivesse várias posses materiais poderia vir a pressionar – através da ameaça ou outros meios coercitivos – um pobre a vender a sua terra. O Direito, na raiz da civilização, surge para defender a esse pobre que não poderia defender-se por si mesmo. Além disso, o Direito possui uma raiz natural, ou seja, deve respeitar a natureza e a verdade das realidades que regula – no exemplo citado anteriormente, podemos ver que a base natural é o direito que todos possuem à propriedade privada e o direito básico de uma pessoa ter o mínimo para sua sobrevivência.

 

Aprovar o aborto, ou despenalizá-lo, seria um retrocesso jurídico da nossa sociedade e, consequentemente, um retrocesso da nossa civilização – negaríamos a mesma raiz do Direito, ou seja, a sua base natural e a defesa do mais fraco.



Cientificamente, hordiernamente, ninguém pode duvidar que um embrião humano seja um ser humano – com um DNA humano único e irrepetível. É uma clara evidência científica – se pegamos uma célula deste embrião podemos afirmar claramente que é um indivíduo da espécie Homo sapiens sapiens.


O que se coloca em jogo, então, não é a possibilidade de eliminar algo que não seria uma vida humana, mas sim o conflito entre duas liberdades – a do embrião e àquela da mãe. É verdade que pode haver este conflito – e que, muitas vezes, existe de fato – mas, como víamos antes, a quem o Direito está chamado a defender? A vida de um ser inocente e indefeso ou a liberdade de uma mulher que não quer conceber este indivíduo (gerado por ela)? Quem é o mais débil, o mais fraco? Qual o bem maior – a vida de um ser, base de todos os demais direitos ou a liberdade de outro? Certamente o Direito – tal como foi concebido, com base em uma raiz natural – deveria defender aqui o direito básico à vida.

 

Que as nações chamadas de “Primeiro Mundo” tenham cometido este retrocesso civilizatório e jurídico não converte o aborto em sinal de progresso. É mais, seria um claro sinal de retrocesso. Há países na Europa cujo número de crianças abortadas supera o número de crianças nascidas. Falando só desde o ponto de vista econômico, não é esta uma das causas da crise europeia? Falta população que gere consumo interno, gerando produção e gerando emprego.

 

A “cultura de morte” jamais gerou progresso. Gera egoísmo, falta de doação, falta de caridade. Que sociedade é essa “civilizada” que considera os filhos não como um bem, mas como um mero problema a ser eliminado? Que sociedade civilizada é essa que mata aos seus próprios filhos, cidadãos e membros desta mesma sociedade?


Para evitar este retrocesso em todos os sentidos – humanista, moral, ético, jurídico, social – é que o aborto não deveria ser aprovado no Brasil e em nenhum lugar do mundo.

 

Por fim, a Igreja sempre foi e continua sendo mestra de humanidade. Certamente não está sendo redutiva neste ponto, mas está pedindo à humanidade que venha a ser humana de fato. Está pedindo que respeitemos o mais básico dos direitos – aquele da vida de um ser inocente. O reducionismo não é da Igreja, mas sim deste grupo de pessoas que se sentem iluminadas, que – com um alto grau de miopia – enxergam o retrocesso como progresso, enxergam o assassinato como liberdade.


ZENIT- A resposta da Igreja Católica a favor da vida do nascituro é uma resposta somente baseada na Sagrada Escritura, como pensam alguns?


PE. HELIO: Deus revelou muitas verdades aos homens, e muitas delas através da Sagrada Escritura. Dentre essas verdades reveladas, podemos dizer que existem dois tipos: as verdades totalmente sobrenaturais, que o homem jamais seria capaz de alcançar com suas próprias forças, como, por exemplo, a verdade de que Deus é Uno e Trino, ou a entrega de Cristo na Eucaristia. Esse tipo de verdade, logicamente, exige a fé. Por outro lado Deus também revelou algumas verdades de ordem natural, ou seja, verdades que o homem seria capaz de alcançar com suas próprias forças. Neste sentido, podemos dizer que somos ajudados a alcançar e entender essas verdades básicas. Porém, se alguém não tem fé ou não conhece a Sagrada Escritura, também é capaz de alcançar tais verdades.


Uma dessas verdades naturais – que qualquer pessoa com o uso de razão é capaz de alcançar – é a proibição de matar a um inocente. Culturas não católicas e não cristãs são capazes de entender essa obrigação humana. Países como o Japão, por exemplo – sem influxo cristão – possui legislação que defende a vida do inocente.


Portanto a questão da defesa da vida do embrião ou do feto não é um tema religioso. É uma questão de humanidade. Neste sentido, poderá de fato um dia haver leis contrárias à defesa da vida, mas jamais serão verdadeiras leis, porque serão contrárias ao próprio modo de ser do homem.

 

ZENIT- Outro dos argumentos usados em favor do aborto é o crescimento demográfico, que, segundo alguns, é algo que ameaça a vida do planeta. É válido esse argumento?


PE. HELIO: As teorias malthusianas parecem ter entrado de tal modo na cultura mundial, que se dá por suposto algo que, comprovadamente, é falso. Nestas teorias – que tiveram tanto êxito nos séculos XIX e XX – se dizia que o crescimento populacional se daria em progressão geométrica, enquanto os recursos humanos cresceriam em progressão aritmética. Deste modo, em poucas décadas, haveria uma completa escassez de recursos no planeta.


A mesma teoria malthusiana agora volta a estar de moda. Desta vez ela vem disfarçada com uma nova roupa, a do “ecologismo”, e com traços apocalípticos – como se o homem fosse o único mal da terra e esta estivesse a ponto de ser destruída. Chegamos à geração “Avatar” – que exalta a ecologia ao mesmo tempo em que mata seus próprios filhos. É verdade que não podemos desrespeitar o mundo que nos foi dado, é verdade também que temos um dever de justiça de deixar o mundo para as gerações futuras, mas é fundamental entender que o mundo está em função do homem – para ser utilizado racionalmente e com respeito.


A grande escassez de recursos anunciada por Malthus jamais se cumpriu. Os avanços na agricultura – desde a invenção do trator até as altas tecnologias utilizadas para as sementes – aumentaram a produção agrícola de modo vertiginoso e muito maior que qualquer previsão. As terras cultivadas hoje – segundo dados do Banco Mundial e da ONU – chegam somente a 24% do total de terras que ainda podem ser cultivadas no mundo. Além disso, as novas tecnologias constantemente permitem que terras consideradas inférteis sejam passíveis de cultivo – como, por exemplo, muitos hectares de terras antes consideradas desérticas em Israel. O fato de que ainda exista fome no mundo não se dá pelo excesso de população, mas sim pela ganância de poucos.


Com base em tudo que foi visto, é lógico que considerar o crescimento demográfico como uma ameaça à vida do planeta é uma teoria ultrapassada e absolutamente sem nenhuma evidência científica. O controle de natalidade – muitas vezes desrespeitando a própria liberdade da mulher através de esterilizações forçadas – antes de ser uma solução para o respeito ao meio ambiente, é uma das causas da crise. O aborto, como forma de controlar o crescimento demográfico, traz uma “cultura de morte” incompatível com o próprio modo de ser da humanidade. Como podemos querer respeitar o planeta se não somos capazes nem mesmo de respeitar aos nossos filhos?














domingo, 17 de junho de 2012

Cristo Eucarístico

Belo vídeo! A Eucaristia, corpo e sangue de Cristo, é, de fato, ponto de convergência e união para todos os Católicos. Na Eucaristia encontramos o próprio Cristo presente, real, substancial e tão perfeito como ele está no céu. A partir da Eucaristia somo impelidos ao mundo para encontrar o Cristo em cada irmão, especialmente naqueles mais sofredores.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Quando é namoro ou amizade? Preparando-se para viver o ''vestibular'' do amor

Reflitamos sobre o namoro, o primeiro passo para quem quer viver a vocação matrimonial:


"O homem não nasceu para viver isolado. Disso sabemos e inclusive estudamos na escola a importância dos nossos relacionamentos.


Poderíamos dizer que a amizade entre as pessoas fundamenta-se nos encontros de suas necessidades diversas e em suas descobertas conjuntas baseadas na lealdade e no comprometimento de ambas as partes.


Ainda quando estávamos dentro do convívio familiar, nossos abraços, beijos e outras manifestações de carinho tinham uma conotação fraterna. Num convívio social mais abrangente vivemos uma outra dimensão na qual continuamos a ser fraternos, mas com pessoas que não tínhamos convivido anteriormente.


Em nossas amizades não procuramos subjugar o outro ou tirar proveito de alguma situação. Entretanto, na experiência com o sexo oposto podemos defrontar com algumas surpresas, como por exemplo, acreditar que um novo sentimento, além da amizade, pode estar aflorando.


Manifestamos nossa lealdade por essa amizade através das mais variadas demonstrações de carinho: abraços, beijos, telefonemas... Contudo, já não estaremos mais beijando nossos irmãos, nem tampouco abraçando nossos pais. Mas, se um namoro começa a partir de uma amizade verdadeira, como podemos identificar se o nosso abraço está ganhando um sabor diferenciado? Poderia aquele(a) amigo(a) ser um(a) futuro(a) namorado(a)?


Se realmente estivermos intencionados em fazer tal descoberta, o primeiro passo, que acredito ser interessante avaliar, seria buscar identificar nesta pessoa qualidades, destreza, seu senso de responsabilidade diante dos fatos e compromissos, etc.


Considerando a possibilidade de viver a mudança de uma amizade para um namoro, este será o momento propício para investir ainda mais na amizade no sentido de buscar respostas para os quesitos que consideramos relevantes para a nossa felicidade.


Sem atropelos, e na maturidade que Deus deseja nos conceder, devemos nos colocar predispostos a viver esse tempo de conhecimento recíproco e de "pesquisa", sem antecipar o momento de Deus, preparando-nos para viver o "vestibular" do namoro. "


Dado Moura - contato@dadomoura.com
Extraído de: http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=3279&id=

quarta-feira, 6 de junho de 2012

HOMENAGEM AO PADRE LINO DAL'LA POZZA EM SEUS 80 ANOS





Homenagem feita ao Padre Lino Dal'la Pozza, ao término da missa em ação de graças por ocasião de seu aniversário de 80 anos e abertura de seu ano de Jubileu Sacerdotal:

Goiânia, 23 de Setembro de 2010

Caríssimo Revmo Padre Lino.
Quanta graça concedeu-nos o Pai ao permitir neste dia que o tivéssemos entre nós. Hoje é dia de congratularmo-nos contigo que porta em teus ombros uma aljava repleta de anos e, não obstante, traz estampado no rosto o sorriso de uma criança. Quem vê este “jovem” octogenário, com seus cabelos branquinhos, dificilmente pode imaginar o vigor, disposição e otimismo que dele brotam. Porém, um caminho não é feito sem cansaços e fadigas, dores e cicatrizes. Nelas encontramos e enxergamos as marcas de um verdadeiro cristão que tendo abraçado a cruz, caminho de doação-oblação, é fortalecido pelas palavras paradoxais de Cristo, que diz: “O meu fardo é leve e o meu jugo é suave”.
Próprio dos que fazem esse caminho é lançar sem cessar as sementes do Reino definitivo. Pe. Lino, se fizeres a experiência de observar o caminho trilhado verás a vida que brota e os frutos que despontam. Aqui reside a alegria daqueles plantam e que confiam na esperançosa certeza da colheita do Reino de Deus que já raiou em nosso meio.
Bem sabemos que no oitavo dia deu-se a graça da Nova Criação, Pe. Lino, que teu octogésimo aniversário seja momento de novos começos, de renovação, construção e desconstrução, de lançamento de alicerces ainda mais sólidos e resistentes para prosseguir adiante combatendo o bom combate.
Oitenta anos não são oitenta dias ou oitenta semanas, é toda uma vida coroada. Sendo que destes oitenta anos, trinta e nove são de uma vida entregue à missão, de uma experiência de deixar casa, pai, mãe, irmãos e campos. Enfim, de deixar a própria pátria, o torrão natal, para servir a Deus na pessoa do próximo em um país estrangeiro, nos rincões de Goiás.
Com toda certeza, Pe. Lino, no correr dos anos tua vida foi feita de encontros, de pessoas que entraram em tua história, assim como entraste em nossa história e dela fizeste parte, traçando conosco, e com outros, uma história participada, de convivência, partilha e comunhão. Pe. Lino, como encanta-nos tua presença em nosso meio, palavra viva de uma vida de conformação ao Cristo.
Como já lhe disse em certa ocasião: “Teu exemplo move-nos e nos faz ter mais fé. Tua santidade e pureza nos constrange, e faz-nos esforçarmos ainda mais para nos assemelharmos. Mas se voltamos nossos olhares para ti, para tomá-lo como exemplo, não é simplesmente por tua pessoa, mas porque sempre aponta-nos o Cristo, o qual configurou-se contigo.” Que o senhor continue a ser a estrela que mostra o caminho, a ponte que liga as margens e a seta que indica o Cristo, para todos os que ainda tiverem a bênção de passar pelos caminhos de tua vida.
Obrigado, Pe. Lino! Parabéns por mais este ano de vida, de crescimento e amadurecimento diante de Deus e dos homens. Que o Senhor da Messe continue a cumulá-lo de bênçãos em tua vida e ministério.
Esses são os votos de toda a sua família do seminário São João Maria Vianney.
Murah Rannier Peixoto Vaz
Seminarista da Diocese de Ipameri

domingo, 3 de junho de 2012

O Matrimônio na história da humanidade (Parte II)

Reflexões de Mons. Vitaliano Mattioli

CRATO, sexta-feira, 1 de junho de 2012 (ZENIT.org) - Na sociedade romana, Roma é a pátria do direito. A legislação romana sobre o casamento é muito importante porque passou depois para o direito canônico. A mesma palavra “matrimônio” foi formada pelo direito romano. Matrimônio deriva do latim matris munus (ou munium) para evidenciar o papel importante da mulher na família; cônjuge (coniugium) “quia mulier com viro quasi uno iugo astringitur” (o homem e a mulher estão unidos no mesmo compromisso); connubio (connubium) da nubere, velar, pelo costume de pôr um véu (flammeum) sobre a cabeça da mulher.

Para os romanos o matrimônio (sempre monogâmico; nunca foi admitida a poligamia, somente tolerada) era a convivência de um homem com uma mulher com a vontade de serem marido e mulher (affectio maritalis = carinho conjugal), que se devia manifestar com uma cerimônia pública. Este elemento distinguia o casamento da união livre. No período antigo não existia o divórcio. A intenção de viverem juntos devia ser permanente, isto é, no momento do casamento as pessoas tinham que exprimir a vontade de permanecerem juntas por toda a vida. Ainda que também podia ser que no tempo esta vontade acabasse.

A familia era natural. Para o historiador Musonio Rufo (I sec. d.C.) existia somente a família legítima (união de um homem com uma mulher) abençoada por Júpiter. O casamento homossexual nao era permitido. O imperador Nero casou-se por duas vezes na forma homossexual. Porém nunca o direito romano reconheceu o casamento homossexual. Assim se encontra em Tacito, Suetonio, Dione Cassio. Cicero definiu o matrimônio: “Prima societas in ipso coniugio est…; id autem est principium urbis et quasi seminarium rei publicae” (De Officiis, I, 17, 54; O casamento é a primeira sociedade…; por isso é o primeiro princípio da cidade e o viveiro do Estado). A definição clássica do matrimônio é aquela do jurista Erennio Modestino (m. 244 d.C.): “Nuptiae sunt coniunctio maris et feminae et consortium omnis vitae, divini et humani iuris communicatio” (Dig. 23,2,1) (União de um homem com uma mulher, uma comunhão por toda a vida, com a aceitação de tudo o que é exigido pelo direito humano e divino). Com as palavras Coniunctio maris et feminae Modestino entendia a união sexual. Poucos anos antes, Ulpiano com esta coniunctio entendia o matrimônio mesmo, conteúdo no direito natural. Ele dizia que pela validade do matrimônio não precisa a união carnal, mas o consentimento (Digesto, 35,1,15). Segundo Ulpiano o consenso compreende a affectio maritalis, a vontade do marido de comportar-se com carinho e com respeito com a sua esposa.

A outra está contida nas Institutiones de Justiniano: “Viri et mulieris coniunctio individuam consuetudinem vitae continens” (Inst., 1,9,1). Nestas palavras se encontram os elementos fundamentais. A vontade dos cônjuges é indispensável e ao menos na intenção deve ser perpétua. O matrimônio é percebido como algo de permanente: omnis vitae. O historiador Tacito escreve: Consortia rerum secundarum adversarumque (Anales, III, 34,8), no bom e no mau destino. Plutarco na obra Bruto pôe na boca de Porcia, esposa de Bruto estas palavras: “Ó Bruto, eu me casei contigo para compartilhar a tua alegria e o teu sufrimento” (Bruto, 13). A diferença entre o casamento legítimo e a união livre era esta, portanto: a manifestação da vontade de viverem juntos por toda a vida. “Não é a união carnal mas o consentimento, a vontade, que faz o matrimônio” (Digesto, 35,1,15). Por isso a autoridade do pai não podia intervir sobre a vontade dos filhos, isto é, o pai não podia obrigar os filhos a casar-se se eles não quisessem: “Non cogitur filius familiae uxorem ducere” (Dig. 23,2,21).

Contrariamente às outras culturas antigas, no direito romano o casamento não era celebrado por etapas, mas somente com uma cerimônia, na qual se exprimia o consentimento. Nos primeiros séculos da história romana o matrimônio era indissolúvel. Somente depois, no período imperial foi admitido o divórcio. Já que a vontade é o elemento essencial para a validade do matrimônio, então, passou-se a pensar que este existe até o permanecer desta vontade. Se um dos dois não quiser mais viver com o outro, o casamento termina.

Então, depois do divorcio pode-se novamente casar. A procriação é importante mas o carinho (afeto) passa que é mais importante. Porém, a procriação é um elemento do matrimônio: se falta a capacidade física de procriar o casamento é inválido. Por isso é permitido somente depois da puberdade. É tambem proibido pelas pessoas já casadas. O matrimônio è monogâmico. A poligamia não tem lugar no direito romano. Pelos juristas não era possivel compreendê-la. Para casar-se novamente, a primeira união deve ser desligada: “Neque eodem duobus nuptia esse potest neque idem duabus uxores habere (Gaio, Inst. 1,63; não é lícito ser casado duas vezes ao mesmo tempo, nem ter contemporaneamente duas mulheres). Era proíbido o incesto, o casamento entre os primos, tio e sobrinha, tia e sobrinha. Tudo isto confirma que o matrimônio não era algo privado, mas uma realidade pública, social. É importante notar que a definição de Modestino nos fala do direito divino (divini iuris). Isto evidência uma relação do matrimônio com a divindade. Na cerimônia nupcial havia uma invocação à deusa Juno Pronuba, divindade que protegia as núpcias.

Quando a Igreja se preocupa com a família, não age fora do seu campo de ação. A Igreja faz parte da estrutura social e por isso tem o direito de exprimi a sua palavra sobre esta fundamental instituição. De fato, se a família cair, tudo vai cair.

O fato é que o matrimônio leigo e família leiga (no senso de laicista) não existe. Têm uma profunda conotação religiosa, já reconhecida seja pelos gregos seja pelos romanos.

Os gregos e depois os romanos estavam convencidos de que o matrimônio foi querido pelos deuses. Estes dois povos tiveram bem claro a existência da lei natural (lex naturalis) precedente às leis dos homens (lei positiva). Estavam convencidos de que existia um direito anterior, uma lei não escrita, precedente às leis formuladas pelos juristas. Pelos romanos já antes das doze Tábuas da Lei o matrimônio tinha uma conotação religiosa.

A Igreja fez muitas intervenções sobre a família. Além do Concílio e muitos discursos dos Papas, as intervenções oficiais estão contidas nestes documentos: Leão XIII: Arcanum Divinae Sapientiae (10-2-1880); Pio XI: Casti Connubii (31- 12- 1930); João Paulo II: Familiaris Consortio (1981); Pontifício Conselho para a Familia: Família, Matrimônio e “uniões de fato” (2000).

O Papa Bento XVI participará do Encontro de Milão e reapresentará ao Mundo o pensamento oficial da Igreja sobre o matrimônio e família no século XXI.

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e no Pontificio Instituto São Apollinare de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Matrimônio na história da humanidade (Parte I)

Reflexões de Mons. Vitaliano Mattioli*
CRATO, quarta-feira, 30 de maio de 2012, Extraído de ZENIT.org.

De hoje, 30 de maio até o 3 de junho celebra-se em Milão (Itália) o VII Encontro Mundial das Famílias, que tem como tema: “A família, o trabalho, e a festa”.

É inútil repetir o quanto a família esteja ameaçada hoje. Basta uma simples reflexão para dar-se conta de uma verdadeira conjura contra a instituição familiar.

O encontro de Milão tem por objetivo sensibilizar a consciência social e colocar de novo a família no lugar que lhe corresponde, ou seja, no centro da sociedade. Nessa reflexão de hoje partimos do princípio de que o Estado vem depois da família. É o conjunto das famílias que constitui o Estado. Por isso o Estado não tem o poder de colocar as mãos em características fundamentais do instituto familiar, mas somente providenciar que a família sobreviva como instituição natural da sociedade. Vejamos, por exemplo, como em em todas as culturas encontramos disposições em defesa da família como sociedade natural fundada sobre o matrimônio. Façamos um percurso histórico.

No Código de Hamurabe (1750, mais o menos, a.C.) está escrito: “Se um homem se casou com uma mulher, mas não concluiu o contrato com ela, esta mulher nao pode ser acreditada como esposa legítima” (n. 128); Se uma mulher casada é surpreendida na cama com um outro homem, todos os dois devem ser amarrados e afogados” (n. 129).

Já no V sec. a.C. os textos confucianos nos falam da família como fundamento do Estado. Se a família não vive conforme as virtudes, também o Estado não pode está bem. Para formar uma família virtuosa, a pessoa deve esforçar-se para ser perfeita antes de casar-se.

Na sociedade da antiga India, conforme a descriçao do Kamasutra, o Tratado sobre o amor, descrito por Mallanaga Vatsyayana (III Sec. d.C.), o casamento é algo sagrado, é uma obrigação religiosa que envolve a comunidade. As famílias estão comprometidas no casamento dos filhos. Isto porque o casamento não é um fato privado.

As leis do Manu (não tem uma data certa; mais ou menos entre o sec. II a.C. e o sec. II d.C.). No cap terceiro faz a lista de oito modalidades para casar uma mulher e dos impedimentos. Na antiga Grécia, já antes de Homero, o matrimônio era considerado o fundamento da sociedade. A familia por meio do casamento, era a condição indispensável para a propagação da espécie humana. A família, nos antigos poemas, é apresentada com grande estima. Também nos tempos antigos, o casamento não tinha uma legislação bem marcada, porém já aparece como um fato social; tem algumas cerimônias públicas e condições para que fosse um casamento reconhecido. Parece que a primeira forma legal específica foi introduzida pelo legislador Solon (Sec VI a.C.) que evidenciou as condições para que um casamento fosse reconhecido legitimo. Péricles (451 a.C.) pusera outras condições. O casamento tinha um caráter sagrado. Terminada a festa do casamento, os casais agradeciam aos deuses, oferecendo um sacrifício, especialmente a Eros e Afrodite. O último ato consistia no registro do casamento no livro chamado fratria, junto a duas testemunhas.

Na segunda parte veremos como no Império Romano, pátria do Direito, o Matrimônio era uma instituição muito valorizada.

* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e no Pontifício Instituto S. Apollinare em Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.

domingo, 27 de maio de 2012

O CANTO DO MAGNIFICAT


Murah Rannier Peixoto Vaz
O belíssimo canto do Magnificat, conservado no evangelho de Lucas, traz, envolto em sua singeleza, uma radicalidade profética com conteúdo libertador e político. É quase um eco revolucionário e subversivo de solidariedade humana. Um Deus que tem opção pelos Anawin, os pobres do Senhor, aqueles que se põe em estado de total dependência à Deus. Com isso, Maria mostra a intervenção libertadora de Deus que age de modo diverso dos homens e privilegia os pobres (Anawin) e rebaixa os ricos, orgulhosos e soberbos. Porém é preciso tomar cuidado com as limitações que algumas alas teológicas propõem como exegese desse texto.

Vamos fazer algumas abordagens sobre o Magnificat:
EXEGÉTICO-HISTÓRICO – O hino possui uma releitura da história sob um viés sapiencial que leva a enxergar os critérios da misteriosa intervenção divina que escolhe os pequenos, os menores, aqueles que são desprezíveis e os elege. Também há a retomada de textos correntes do AT, como o hino de Ana (1 Sm 2,1-11) que, ao compará-lo ao Magnificat, percebe-se que ambos são respostas de mulheres contempladas com a bênção divina por meio da concepção de um redentor (Goel) para Israel (no caso de Samuel, um redentor político-religioso e no caso de Jesus, o redentor messiânico). Da mesma forma, ambas mulheres humilhadas nas quais a potência de Deus foi exaltada.


Todavia, também há uma retomada dos trechos de alguns salmos, como os salmos 103, 1 e 34, 2-3. Isso ocorre sempre em momentos em que Israel é oprimido, ou alguém que, como Ana, sofre por uma humilhação ou injustiça e Deus se levanta a favor daqueles que lhe são fiéis. Sobre isso, Boff (2006, p. 329) diz o seguinte: “O Magnificat vibra todo de ressonâncias do Antigo Testamento. Para cada versículo do hino marial-lucano podem-se encontrar cachos de referências bíblicas. E é normal pois para todo judeu piedoso a Escritura é o livro da vida. Esse cântico mostra Maria como uma mulher impregnada da fé dos pais, que era, de resto, uma fé fortemente messiânico-libertadora”. No Magnificat, Maria relaciona sua maternidade messiânica com as promessas antigas e proclama a realização das promessas de Deus a Seu povo, fazendo a síntese de toda a história da salvação.


É impossível falar de Magnificat sem fazer sua leitura à luz do Êxodo e da Páscoa. Boff (2006, p. 326) apresenta um quadro da elaboração do canto do Magnificat. Para ele, do evento originário ocorrido mais ou menos no ano 7 a.C. gerou-se uma tradição oral que era transmitida ali pelo ano 40 d.C. e que, por volta de 80 d. C. se firmou e consolidou com a elaboração do relato lucano do evangelho. Nesse período, a Igreja era perseguida ferrenhamente pelo Império Romano.


ESPIRITUAL – Já nos primeiro versículos o Magnificat surge já como uma explosão de júbilo. Segundo João Paulo II: “Esse cântico é a resposta da Virgem ao mistério da Anunciação: o anjo convidou-a a alegrar-se; agora Maria expressa o júbilo de seu espírito em Deus, seu salvador. Sua alegria nasce de ter experimentado pessoalmente o olhar benévolo que Deus dirigiu a ela, criatura pobre e sem influência na história” (Catequese de 6-XI-96).

Maria apresenta-se como aquela na qual Deus realizou grandes maravilhas. No decorrer do canto, Maria refere-se a si mesma por cinco vezes, todavia, em total submissão e sem qualquer narcisismo, “não canta suas proezas, mas as façanhas de Deus, realizadas nela” (BOFF, 2006, p. 337). Tudo em Maria é graça, é obra do Espírito: “É a presença do Espírito em Maria que a faz vibrar, sair de si e perder-se em Deus. Contudo, nesse transe o eu da Virgem permanece consciente de si” (BOFF, 2006, p. 337). É preciso ter clareza de que isso “Não é uma catarse nem entretenimento, mas um profundo reconhecimento de quem é Deus e do se está fazendo. É um momento de contrição. A verdadeira adoração parte de um coração rendido e absorto em Deus. Não há estrelismo humano, mas uma glorificação de Deus” (FILHO, 2012).
Em Maria, há outro ponto que toca muito a espiritualidade dos cristãos como um todo, do qual também é modelo. Trata-se de seu êxtase, como saída de si mesma, Maria não se fecha ensismesmada e egoisticamente em seu relacionamento com Deus, ela parte da relação de seu Eu e o TU de Deus para um olhar sobre o Eles. No Magnificat, Maria volta seu olhar sobre aqueles que sofrem, que precisam de ajuda. Inclusive é esse o contexto em que se encontra Maria naquele momento, ela foi até Isabel, não a passeio, mas para colocar-se a serviço de sua parenta. A vida daqueles que se relacionam com Deus não é fechada ao olhar daqueles que sofrem e, constantemente, nos interpelam, ao contrário, todos somos responsáveis pelo outro, porque responsabilizar-se é uma das características do amor.

ECLESIAL-ESCATOLÓGICO – A libertação que Deus realiza, ainda que seja já instaurada, ainda não se realizou plenamente, ou seja, essa libertação não se dá pura e simplesmente na história, aqui e agora. João Paulo II afirma que o Magnificat, “inspirado no Antigo Testamento e na espiritualidade da filha de Sião, supera os textos proféticos que estão em sua origem, revelando na ‘cheia de graça’ o início de uma intervenção divina que vai além das esperanças messiânicas de Israel: o mistério santo da Encarnação do Verbo” (Catequese de 6-XI-96). O messianismo observado no Magnificat vai além de um Reino terrestre, além de uma libertação terrena, ainda que não descarte os esforços para isso. Portanto, à exemplo do Reino que já está em nosso meio, mas ainda não em sua totalidade, a libertação total de todo o gênero humano só se dará na realidade celeste e divina, no Reino definitivo. Essa libertação geme em dores de parto, como diz S. Paulo, porém, a alegria que virá não se compara em relação ao que vivemos agora.
Partindo para o nível eclesiológico, Maria, ao cantar o Magnificat, faz eco a todo o novo Israel e, do mesmo modo, a Igreja ao longo da história faz ecoar a voz de Maria. De seus lábios emana a voz da Igreja reunida. Nela a Igreja se personifica, por “seu opus ontológico, moral e escatológico, como viram os Padres da Igreja e como relembrou o Vaticano II” (BOFF, 2006, p. 327). Entretanto, voltando à questão escatológica, o canto da Virgem comporta uma libertação que se dá em meio às tensões e as dolorosas contradições, mas sem deixar de lado a alegria e o louvor daquela que confiou em seu Deus. Aqui abre-se um parênteses para uma comparação com o livro do Apocalipse, onde, mesmo em meio “as dores do martírio, irrompem sempre os gritos de ‘aleluia’ por causa das promessas do Todo-Poderoso” (BOFF, 2006, p. 336).
SÓCIO-POLÍTICO – A libertação que Deus vem trazer para o povo e que é proclamada no hino do Magnificat vai bem além de uma libertação material, terrena e histórica, mas, como já visto, não a descarta, antes a pressupõe e clama por colaboradores, clama por aqueles que cooperem com a obra salvífica que já começa aqui e agora e depende da abertura e do sim de cada um que livremente assume sua vocação, o chamado de Deus, e se torna agente de transformação das estruturas de injustiça e pecado. Não se trata de uma revolução de classes, uma revolução aos moldes do marxismo utópico, pois, esse modelo, comprovadamente apenas trocou uma classe por outra. Trata-se de uma conversão dos corações, trata-se de operar uma dupla terapia, como será visto a seguir, que conscientize e cure ricos e pobres de seus deveres e direitos. Não é a toa que o documento Redemptoris Mater (37), afirma que o Magnificat é o manifesto do amor, da “opção preferencial de Deus pelos pobres”.
O QUE DIZ O MAGISTÉRIO?     
A POBREZA DE DEUS - O “ANAWIM” de Deus que vive a pobreza evangélica não vive em condições desumanas e nem deixa de lado a sua dignidade de pessoa, muito pelo contrário, ele combate a carência e a privação dos bens materiais e tudo aquilo que dificulta o seu desenvolvimento integral como pessoa e dos outros. O verdadeiro “ANAWIM” é aquele que se torna totalmente dependente de Deus e com sua própria vida aponta o mesmo caminho aos outros.
O Magnificat é o Hino destes cuja única riqueza é Deus. Nele Maria não exulta pela riqueza ou poder, mas, pelo contrário, por ser pequena, insignificante e humilde. Em suas bem aventuranças Jesus retoma o ensinamento do hino do Magnificat e apresenta o homem novo é um homem dependente de Deus, que se alegra e põe toda a sua confiança somente n’Ele. E apresenta um chamado à indivisibilidade: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
TANTO O POBRE QUANTO O RICO SÃO CHAMADOS À LIBERDADE - O documento apresenta o progresso e a opulência como “pobres riquezas”, assim como: prazer, dinheiro e poder, são apetites que crescem conforme aumentam os bens. O excesso da opulência é tão nocivo quanto o excesso de pobreza. Essa pobreza se dá porque tanto o indigente como o rico obcecado pela própria riqueza são homens mutilados e com uma visão limitada. O indigente por razões independentes da sua vontade e o rico com suas mãos cheias sem capacidade de nada receber. Ambos são impedidos da liberdade interior para a qual Deus chama todos os homens.
De tal modo, se faz necessária uma reforma do coração com dupla terapia: o pobre cumulado de bens é chamado a curar o seu coração ferido pela injustiça e o rico despedido de mãos vazias é chamado a um abandono de sua carga e de seus apegos, para que esteja aberto a receber de Deus e a se tornar dependente d’Ele, não colocando os bens acima de tudo.
Só o amor pode superar os limites humanos e reformar a ação do homem criando estruturas novas do bem comum. Portanto, se o egoísmo gera o pecado social, em contraposição, o Amor gera o bem comum e torna-se forma de superação e reforma interior do homem. Isto só ocorre porque o amor é radical na sua essência e por isso provoca uma transformação radical do homem promovendo a sua integração e o levando a verdadeira conversão que olha para além de seus interesses pessoais e muda pouco a pouco o próprio modo de pensar do homem.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

A FOME NO MUNDO – Um desafio para todos: o desenvolvimento solidário. Pontifício Conselho Cor unum, São Paulo: Paulinas, 2003.

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2008.

BOFF, Clodovis. Mariologia Social – O significado da Virgem para a sociedade. São Paulo: Paulos, 2006.Catequese de João Paulo II (6-XI-96).

FILHO, Isaltino Gomes Coelho. Uma Análise dos Cânticos nos Evangelhos - O Magnificat e o Benedictus. IN: http://www.luz.eti.br/cr_analisedoscanticos.html, Visitado em 24 de maio de 2012.